Em áudio, Jessyka relatou agressão de PM: “Nunca apanhei tanto”

0
10387

No dia 14, jovem foi violentamente espancada por acusado. Na sexta (4), acabou assassinada pelo ex-noivo

A família de Jessyka Laynara da Silva Souza, 25 anos, acredita que o soldado da Polícia Militar Ronan Menezes do Rego, 27, premeditou o assassinato da jovem. Tio da vítima, o professor Wemerson da Silva, 36, conta que o acusado pegou escondido a chave da casa da moça e fez uma cópia. No dia do crime, na sexta-feira (4/5), ele a utilizou para invadir o imóvel, na QNO 15 do Setor O de Ceilândia, onde matou a tiros a ex-noiva. Poucos dias antes, ela relatou, em áudio, ter sido violentamente espancada pelo soldado. “Nunca apanhei tanto”, disse a uma amiga.

Na residência onde foi morta, Jessyka estava com um primo, um irmão e a avó, de 70 anos, a única a testemunhar o terceiro tiro disparado pelo militar. Em choque, ela diz não se lembrar de nada. Pouco antes de assassinar a vítima, segundo o tio, Jessyka e Ronan discutiram. O PM foi embora e voltou 20 minutos depois. Na casa, disparou pelo menos três tiros.

De acordo com o tio, ao entrar no cenário do crime, Ronan estava com a corrente do portão na mão. Para a família, a ideia era evitar que alguém o trancasse e impedisse a sua fuga. “Meia hora após matar, ele ligou para um sobrinho perguntando: ‘Mano, ela morreu? Ela morreu?’. Foi tudo premeditado”, acredita Wemerson.

Jessyka e Ronan namoraram por seis anos e ficaram noivos em novembro do ano passado. O rapaz passou a mostrar uma face violenta, controladora, de acordo com os parentes. Há três meses, o casal rompeu o relacionamento. Mesmo assim, o PM não se conformava.

“Quando ele entrou na PM (há cerca de três anos), ficou mais agressivo com ela. Se sentia um Deus com a arma na mão e tinha a farda como armadura. Cerca de um mês antes do crime, ele falou para um sobrinho que se matasse a Jessyka, pelo fato de ser policial, não aconteceria nada. Sabia até quanto tempo ficaria preso”, disse o tio.

Relatos de amigos da família apontam que Ronan, mesmo com o fim do relacionamento, vigiava a ex desde o mês passado. “Ele havia estudado todos os horários e a rotina da nossa família. Ameaçava a Jessyka constantemente, dizendo que se eles não ficassem juntos, mataria toda a família”, reforma Wemerson.

O rapaz também, há um mês, começou a consultar um psicólogo. A família da vítima acredita que já seria uma manobra para alegar insanidade, após cometer o crime.

A técnica de enfermagem Adriana Maria da Silva, 39, mãe de Jessyka, confirma que a filha era ameaçada pelo acusado. E dá detalhes do crime. “Na sexta (4), eles discutiram e o Ronan saiu levando o celular dela. Atirou no rapaz da academia (Pedro Henrique da Silva Torres, 29), voltou e matou minha filha. Ele apagou todas as mensagens que havia mandado para ela”, ressaltou a mãe.

De acordo com a Polícia Civil, a jovem levou, no mínimo, três tiros. Mesmo número de projéteis encontrados na casa da vítima, um deles grudado na meia-calça da irmã de Jessyka e que será entregue à polícia nesta segunda (7). Os investigadores evitam falar em crime premeditado, mas confirmam o histórico de violência do acusado contra a moça.

Detalhes do espancamento
Vinte e um dias antes de ser assassinada, Jessyka chegou a mandar uma mensagem para uma amiga relatando que havia sido agredida pelo militar. “Era para eu tá enterrada agora, amiga. Ele me espancou tanto, tanto. Me deu tanto chute, soco, coronhada. Rasgou minha cabeça”, disse a moça, que tinha passado no concurso de soldado do Corpo de Bombeiros e esperava assumir o cargo em breve.

No áudio de 9 minutos, ela ainda contou ter ficado coberta de sangue e, mesmo assim, Ronan não parava de bater. “Coloquei uma fralda na cabeça, que encharcou e começou a pingar. Tive de colocar uma toalha, para você ter noção. Só não morri porque os pais dele chegaram”, ressaltou.

A agressão ocorreu na casa de Ronan, no dia 14 de abril. Enciumado com uma mensagem que Jessyka havia recebido, o rapaz se transformou e mostrou a sua face ainda mais violenta. Passou a espancar a jovem, após ela impedir que ele mexesse em seu celular. Mas, com pena do militar, a moça nada relatou à família. Tentava disfarçar os roxos na pele com maquiagem.

Assim que os pais de Ronan chegaram à residência, levaram Jessyka à UPA, mas, no meio do caminho, a jovem disse que já estava bem. “Não consigo ter raiva dele mesmo assim, amiga. Do jeito que ele tá, sinto dó. Não vou à delegacia para pagar o mal com o mal”, afirmou.

Depois de agredir a jovem, Ronan alegou estar arrependido. Chorava, dizia que estava tentando mudar e inclusive passou a frequentar um psicólogo. Na mensagem, Jessyka disse que amava o PM. “Mas, amiga, traição eu até poderia perdoar, mas sempre disse que se um dia ele me encostasse a mão não ia aceitar. Não sei o que fazer. Queria sua opinião”, destacou a jovem. O caso não foi denunciado, mas Jessyka terminou o relacionamento. Achou que assim estaria livre do policial. Acabou morta por ele.

Ouça os relatos de Jessyka à mesma amiga sobre as ameaças de Ronan:

Ronan apresentou-se na noite de sexta-feira (4) ao 10º Batalhão do Grupo Tático Operacional de Ceilândia, onde era lotado. O rapaz foi encaminhado à 24ª DP (Setor O) e autuado por feminicídio e tentativa de homicídio. Ronan ficou calado no depoimento e está detido no presídio da Papudinha, que fica dentro do Complexo Penitenciário da Papuda. A Justiça decretou a prisão preventiva do militar. Mesmo de folga, ele usou a pistola calibre .40 para assassinar a vítima.

Conforme informações da polícia, Pedro foi atingido com três disparos porque o militar suspeitava de traição. O professor da academia passou por cirurgia e está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional de Samambaia. Ele se recupera bem, segundo familiares disseram. Sabe que Jessyka foi ferida, mas a família ainda não contou sobre a morte da jovem, a fim de evitar que o estado de saúde de Pedro Henrique se agrave.

A mãe de Jessyka deve ir ao hospital, provavelmente na quarta-feira (9/5), a pedido da família do rapaz, para que possam dar a notícia juntos. O corpo da jovem foi enterrado no domingo (6). Os parentes pedem justiça e querem a ajuda de uma advogado para auxiliá-los.

No próximo sábado (12/5), amigos e familiares de Jessyka Laynara farão uma passeata em homenagem à jovem, cobrando justiça para o caso. Em seguida, será celebrada a missa de sétimo dia do falecimento da moça.

Fonte: Metrópoles

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here